O que as pesquisas mais recentes revelam sobre a confusão no diagnóstico do TDL.

As pesquisas mais recentes reforçam uma mensagem importante: o Transtorno do Desenvolvimento da Linguagem (TDL) continua sendo um dos transtornos do neurodesenvolvimento mais subdiagnosticados e frequentemente confundidos com outras condições, especialmente autismo (TEA), TDAH, dislexia e deficiência intelectual.

Essa preocupação foi destacada em uma importante revisão científica publicada em 2025 por Karla K. McGregorLisa GoffmanElena Plante e Krystal Werfel, no Journal of Speech, Language, and Hearing Research. Os autores afirmam que os avanços na genética, na neurobiologia e na compreensão do desenvolvimento da linguagem mostram que o TDL apresenta uma grande diversidade de manifestações e compartilha características com outros transtornos do neurodesenvolvimento. Essa sobreposição de sinais clínicos torna o diagnóstico um desafio e explica por que muitas crianças recebem inicialmente outro diagnóstico ou permanecem sem o reconhecimento adequado do TDL.

Segundo os pesquisadores, o TDL não deve ser entendido como uma condição rígida ou homogênea. Pelo contrário, trata-se de um transtorno com manifestações amplas, variáveis e que podem coexistir com outros transtornos do neurodesenvolvimento. Por isso, uma avaliação baseada apenas em uma dificuldade isolada pode ser insuficiente. A recomendação atual é realizar uma investigação abrangente, considerando o desenvolvimento da linguagem, a comunicação, as funções cognitivas, o comportamento e o contexto escolar da criança.

Em outras palavras, o diagnóstico diferencial é tão importante quanto o próprio diagnóstico. Identificar corretamente o perfil da criança permite direcionar intervenções mais específicas, evitando atrasos no tratamento e favorecendo melhores resultados no desenvolvimento.

O TDL ainda é frequentemente “escondido” por outros diagnósticos

Nesse mesmo estudo, McGregor afirma que um dos maiores problemas atuais não é apenas identificar o TDL, mas reconhecer quando ele está presente junto com outros transtornos.

Os autores destacam que:

  • muitas crianças recebem primeiro o diagnóstico de TDAH ou TEA;
  • após esse diagnóstico inicial, os profissionais deixam de investigar a linguagem de forma aprofundada;
  • como consequência, o TDL permanece sem diagnóstico por anos. 

O TDL é confundido com TEA, mas existem diferenças importantes

A literatura atual mostra que ambos apresentam dificuldades de comunicação, porém a origem dessas dificuldades é diferente.

Uma criança com TDL geralmente:

  • deseja interagir socialmente;
  • utiliza gestos naturalmente;
  • compartilha atenção;
  • tenta compensar quando não encontra palavras.

Já no TEA, além da linguagem, há alterações qualitativas na:

  • reciprocidade social;
  • atenção compartilhada;
  • uso espontâneo do olhar;
  • comunicação não verbal;
  • interesses restritos e comportamentos repetitivos.

Esses aspectos ajudam no diagnóstico diferencial. 

Muitas crianças apresentam TDL + outro transtorno

A visão antiga de que o TDL deveria ocorrer “isoladamente” mudou.

Hoje sabe-se que o TDL pode coexistir com:

  • TDAH
  • Dislexia
  • Transtorno do Desenvolvimento da Coordenação
  • TEA
  • dificuldades de aprendizagem

Essa coexistência é considerada comum, e não uma exceção. 

O TDL continua sendo pouco conhecido

O artigo de 2025 descreve um problema importante:

o TDL ainda possui baixa conscientização entre profissionais da saúde, educação e famílias.

Isso contribui para:

  • atraso diagnóstico;
  • encaminhamentos inadequados;
  • intervenções incompletas;
  • dificuldades escolares persistentes. 

Confusão com TDAH

A pesquisa mostra que muitas dificuldades de linguagem podem parecer desatenção.

Por exemplo:

  • dificuldade para compreender instruções longas;
  • respostas inadequadas;
  • demora para responder perguntas;
  • dificuldade em organizar narrativas.

Esses comportamentos podem ser interpretados como TDAH quando, na realidade, a principal dificuldade é linguística. Da mesma forma, crianças com TDAH também podem apresentar alterações de linguagem, tornando necessária uma avaliação cuidadosa.

O que os especialistas recomendam?

A tendência atual é abandonar a ideia de procurar um único diagnóstico.

Os pesquisadores defendem avaliações multidisciplinares envolvendo:

  • fonoaudiólogo;
  • neuropsicólogo;
  • psicólogo;
  • neuropediatra ou psiquiatra infantil;
  • escola e família.

O objetivo é compreender todo o perfil neurodesenvolvimental, e não apenas rotular a criança.

Principais artigos recentes

  1. McGregor KK et al. (2025) – Developmental Language Disorder as a Multidimensional Neurodevelopmental Disorder. Discute os desafios diagnósticos do TDL, sua alta coexistência com outros transtornos e o risco de subdiagnóstico. 
  2. Olson et al. (2024) – Differential Diagnosis of Autism and Other Neurodevelopmental Disorders. Explica como diferenciar TDL, TEA e outros transtornos do neurodesenvolvimento com base na comunicação social e no perfil de linguagem. 
  3. Andreou & colaboradores (2022; revisão ainda amplamente citada) – Developmental Language Disorder and Autism Spectrum Disorder. Analisa semelhanças e diferenças entre TDL e TEA, especialmente na linguagem pragmática. 

A neurociência atual aponta que o maior desafio no TDL não é apenas reconhecê-lo, mas distingui-lo de outros transtornos do neurodesenvolvimento e identificar quando ele ocorre em conjunto com eles. O consenso recente é que diagnósticos precisos exigem uma avaliação ampla da linguagem, da cognição, da comunicação social e do comportamento, evitando que um diagnóstico inicial “ofusque” a presença do TDL. 

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